Recordações da primeira infância

Pediram-nos no Petiz, o jardim de infância do meu António, para partilharmos algumas das memórias da nossa primeira infância.

Para vos ser muito sincera não tenho grandes recordações até por volta dos 5 anos. Para trás ficam apenas historias de família que de tão repetidas temos dificuldade em saber se as vivemos de facto ou se apenas as vivenciamos pela voz dos familiares.

Uma das memórias mais vivas é a da mercearia ao pé da casa da minha avó. Lembro de lá ir e da montra do balcão onde se amontoavam esfregões de aço e outras escovas cujo uso me era desconhecido. Recordo bem as caixas de madeira onde estava guardado o feijão e dos sacos em que eram vendidos … Sacos de papel grosso com riscas encarnadas. E nunca me esquecerei do cheiro e da cor do bacalhau que eu detestava. Recordo-me bem dos calcanhares das clientes e dos seus pés calçados com chinelos e meias grossas, das saias de fazenda preta e dos lenços pretos. Os mesmos lenços que via no cemitério quando ia com a minha irmã e com a minha avó lavar e enfeitar a campa do meu avô. Do meu avó só me lembro da fazenda das calcas e que era muito muito alto, ou eu muito pequena….

Outra recordação bem viva é a do pequeno quintal da minha avó, que naquela altura me parecia uma imensa propriedade. Recordo-me bem do cheiro dos tomates, de brincar a inventar historias no meio dos pés de feijão e de algo que me ficou para sempre gravado de forma muito negativa…. O cheiro das galinhas e dos coelhos … Ainda hoje não suporto e não consigo passar perto na secção do mercado do Bolhão dedicada aos animais vivos. Lembro-me da minha avó entrar no galinheiro para ir buscar os ovos e que eu fugia para longe.

Uma recordação que tenho bem viva também é o dia, ou melhor dizendo a noite, em que nasceu o meu mano. Tenho uma vaga ideia de ver a minha mãe gravida, mas recordo perfeitamente o meu pai a pegar-me ao colo e levar-nos a meio da noite para casa da minha tia. Dormi na sala numa cama improvisada com cobertores cheia de medo sem perceber o que se estava a passar.

A Lili, como era tratada por todos, era uma criança normal que gostava de brincar ao faz-de-conta e aos amigos imaginários.
Depois disso tenho maravilhosas recordações da minha família, dos meus irmãos, de passeios de carro, de picnics de domingo, … Um sem fim de dias fantásticos mas já são recordações de infância e de adolescente.

Espero que os meus queridos filhos também eles um dia possam lembrar-se de coisas boas e de muitos momentos felizes connosco.

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